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 Evolução

A Evolução da Responsabilidade Social

As origens de uma ideia - A RS das empresas
O nascimento de um conceito - o Desenvolvimento Sustentável
Cronologia - os principais marcos


  As origens de uma ideia - A Responsabilidade Social das empresas

A ideia de uma responsabilidade social das empresas não é nova. Já em 1920 Henry Ford defendia que as empresas tinham de participar no bem-estar colectivo. Também não é uma ideia que ressurgiu agora como uma moda. É um valor que foi crescendo, evoluindo, tomando corpo até adquirir uma dimensão universal.

De qualquer forma, as origem e os exemplos de uma política socialmente responsável por parte das empresas vêm de longe e estão por vezes ligados a credos religiosos. Os Quakers, membros de uma comunidade protestante criada em 1747 por George Fox, em Inglaterra, e que se tornaram actores económicos importantíssimos, detendo empresas como o Barclays, Lloyds, Price Waterhouse, Cadbury, entre outros, ficaram conhecidos também para além do seu desempenho económico por terem sido os primeiros a recusar a indústria de guerra e a escravatura. Baseavam os seus valores na integridade, respeito dos contratos e dos preços fixados e na atenção especial que davam à higiene e segurança no trabalho.

O primeiro fundo de investimento socialmente responsável tem também origem religiosa. Denominado Pioneer Fund, foi lançado em 1928 pela Igreja Evangelista americana e opunha-se ao consumo do álcool e do tabaco.

Em 1908, ainda nos Estados Unidos, o conselho federal das igrejas lança um documento que ainda hoje, um século mais tarde, se mantém actual. Nesse documento, o conselho manifesta-se a favor de direitos iguais e de justiça para todos, sem discriminação, da abolição do trabalho infantil, do fim da exploração dos trabalhadores, de uma diminuição progressiva das horas de trabalho, da protecção dos trabalhadores contra os perigos ligados às máquinas e contra as doenças profissionais, entre outros.

Até aqui referimos apenas iniciativas tomadas por empresas e por instituições, mas o desenvolvimento do conceito de Responsabilidade Social teve, por outro lado, a pressão dos consumidores, a exigência por parte das comunidades de uma nova postura das empresas, que muitas vezes chega a ser confundida com a luta pelos direitos cívicos.

Em 1955, durante quatro meses, a empresa de transportes públicos de Montgomery, nos Estados Unidos, foi alvo de um boicote por parte da população porque praticava a discriminação racial.





Mas é nos finais dos anos sessenta, em plena guerra do Vietname, que os movimentos dos consumidores, exigindo uma nova postura das empresas, tomam posição de uma forma mais sistemática e generalizada. Organizam boicotes aos serviços ligados à guerra e acções de força contra algumas empresas como, por exemplo, o ataque à General Motors, impondo a segurança dos seus automóveis, que levou mesmo ao encerramento da fábrica e que esteve na origem da criação de uma série de leis sobre a fabricação de viaturas aplicadas depois a todos os fabricantes.

É o início da Responsabilidade Social das empresas tal como a entendemos hoje, é o momento de as empresas assumirem essa responsabilidade de forma mais concertada e de surgirem os primeiros esboços de relatórios de Responsabilidade Social.

A partir daí o crescimento tem continuado a pequenos passos, mas de forma sistemática e tendo como base orientações internacionais. A implantação do conceito no seio das empresas é ainda variável, mas a nível das grandes multinacionais podemos hoje verificar que quase todas realizam o seu relatório de Responsabilidade Social, onde expressam os seus compromissos em relação ao ambiente, aos colaboradores e à comunidade.

Esta acção das multinacionais tem contribuído e estimulado para a implementação de políticas socialmente responsáveis. Quando uma empresa abre uma fábrica noutro país, está de algum modo a exportar para esse mesmo país a sua cultura. Frequentemente, é possível encontrar nas multinacionais traduções dos seus códigos de boas práticas, na língua do país onde estão implantadas, e dos seus procedimentos definidos a nível mundial.


Raph Nader - o impulsionador do boicote à General Motors

Outro aspecto fundamental para o desenvolvimento do conceito é certamente a sociedade de informação, a receptividade da imprensa às denúncias feitas pelas organizações de consumidores e a globalização. A notícia da violação dos direitos humanos numa fábrica do outro lado do mundo chega até nós em segundos, e aqui onde a recebemos, estão porventura os consumidores dos produtos produzidos nessa fábrica, que podem tomar uma posição.

Até aqui falamos essencialmente de exemplos vindos dos Estados Unidos da América e de facto, podemos dizer que foi lá que o processo começou de uma forma mais sistemática. Isso fica a dever-se a uma tradição mais interventiva por parte dos governos europeus, que desde sempre protegeram mais os cidadãos. Como consequência, generalizou-se a noção de que o seu bem-estar dependia muito mais da protecção do Estado e das leis por ele criadas do que propriamente das empresas.

Por isso, na tradição europeia, os sindicatos serão os principais protagonistas nas lutas pela mudança no posicionamento das empresas, desempenhando um papel decisivo nesta área.

Onde estamos agora?

Em 2001, a Comissão Europeia lançou o Livro Verde para a Responsabilidade Social e incentivou as empresas cotadas em Bolsa, que integram um mínimo de 500 trabalhadores, a publicar os seus relatórios anuais de forma tripartida, ou seja, tendo em atenção os critérios sociais, ambientais e económicos. Esta medida foi já adoptada pela França.

A Comissão apelou ainda para que, até 2004, em todos os Estados membros sejam desenvolvidas directrizes e critérios comuns para a elaboração generalizada por parte das empresas de relatórios de Responsabilidade Social.

  O nascimento de um conceito - o Desenvolvimento Sustentável

No final dos anos sessenta/setenta a emergência dos movimentos ambientalistas e a crise petrolífera fizeram dos recursos naturais, da energia e do ambiente em geral, um tema de importância política, económica e social.

É nessa altura que é publicado The Limits to Grow, o relatório Meadows que aponta para um cenário catastrófico: a impossibilidade de perpetuar o crescimento económico devido à exaustão dos recursos naturais por ele motivado. Este relatório e a reflexão por ele gerada leva uma crítica ao modelo de desenvolvimento económico vigente, apontando uma incompatibilidade entre crescimento económico, tal como era entendido na altura, e a preservação dos recursos naturais. É o primeiro passo para o nascimento do conceito de Desenvolvimento Sustentável.




Parar o crescimento estava fora de questão, mas era preciso identificar condições que permitissem esse crescimento, preservando o ambiente.

No mesmo ano em que o relatório é lançado, em 1972, a Conferência de Estocolmo inaugurava a discussão inter-Estados sobre o tema, sobre a interligação entre o desenvolvimento humano e o desenvolvimento ambiental, e em 1987 é finalmente popularizada a palavra - Desenvolvimento Sustentável - na Comissão Mundial sobre o Ambiente e o Desenvolvimento denominada Comissão Brundtland.

Nessa Comissão é dada também a primeira e mais consensual definição para o termo: Desenvolvimento Sustentável é o desenvolvimento que responde às necessidades das gerações presentes sem comprometer a possibilidade de satisfazer essas mesmas necessidades às gerações futuras. Um desenvolvimento que em termos de conceito já não é visto de uma forma fechada e estanque, mas como uma procura permanente de equilíbrios e compromissos entre:

  Os interesses das gerações actuais e futuras;
  Os interesse dos países industrializados do Norte e os países em desenvolvimento do Sul;
  As necessidades dos seres humanos e a preservação dos ecossistemas;
  Os interesse dos diferentes grupos sociais no mesmo país;
  O urbano e o rural.

A questão agora é definir como pode ser o crescimento económico à luz da nova consciência, qual a forma? Qual o conteúdo? Quais as linhas mestras? É dessa reflexão que surgem assim os três pilares do Desenvolvimento Sustentável:

  O económico, que se traduz pela procura no novo contexto da eficácia económica;
  O ambiental, que significa que o desenvolvimento deve contribuir para preservar, melhorar e valorizar o ambiente.
  O social, que exprime o facto de que esse desenvolvimento deve partir das necessidades humanas e responder a objectivos de equidade social;

Estes três pilares estão em pé de igualdade e foram assumidos como a base fundamental pela Comissão Europeia em 1995.

Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social

Desenvolvimento Sustentável ou Responsabilidade Social, os conceitos confundem-se e há até quem fale em cidadania empresarial para expressar uma e a mesma ideia, uma postura por parte das empresas que tem em conta não só os aspectos económicos mas também os aspectos sociais e ambientais.

No documento Criando Valor recentemente publicado, fruto de uma parceria entre a empresa de consultoria SustainAbility, o Instituto Ethos e a International Finance Corporation, essa convergência de conceitos é claramente assumida:

«A sustentabilidade é às vezes chamada responsabilidade social corporativa ou cidadania corporativa. Embora usemos aqui a palavra sustentabilidade, reconhecemos que em muitos pontos os termos são sinónimos e cobrem os mesmos amplos aspectos dos negócios: a gestão, o modo de tratamento dos empregados, o impacto sobre o meio ambiente e sobre a comunidade local e as relações com os fornecedores e clientes.»

De uma forma geral podemos dizer que é a mesma ideia tendo percorrido caminhos diferentes, ou tendo origens diferentes: a Responsabilidade Social tem como pontos de partida questões ligadas à postura das empresas face aos colaboradores e à comunidade, e o Desenvolvimento Sustentável parte de questões económicas e ambientais. O ponto de chegada é o mesmo: uma empresa que se diz socialmente responsável tem de se reger pelos princípios do Desenvolvimento Sustentável e uma empresa que se rege pelos princípios do Desenvolvimento Sustentável é uma empresa responsável socialmente.

  Cronologia - os principais marcos

 1972
Relatório Meadows sobre os limites do crescimento.

 1972
Conferência de Estocolmo, a primeira reflexão conjunta dos diferentes Estados sobre a relação entre a protecção do ambiente e o desenvolvimento humano.

 1987
Comissão Mundial sobre o Ambiente e o Desenvolvimento, começou a ser popularizado o termo «Desenvolvimento Sustentável».

 1991
Criação do World Business Council for Sustainable Development, que reúne 160 empresas em 30 países e que tem por missão acompanhar o meio empresarial na mudança para o Desenvolvimento Sustentável.

 1992
Assembleia Geral das Nações Unidas - O termo «Desenvolvimento Sustentável» é adoptado pelas Nações Unidas.

 1992
Cimeira do Rio, ou Cimeira da Terra. Nesta cimeira foi adoptada a Agenda 21, um plano global de acção para ser posto em prática por todos os governos e três convenções: a convenção sobre as mudanças climáticas, a convenção sobre a diversidade biológica e a convenção sobre a desertificação.

 1994
Declaração Europeia das Empresas Contra a Exclusão. Esta declaração foi adoptada por iniciativa do então presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors e de vinte presidentes de empresas.

 1995
Cimeira de Copenhaga, onde foram validados à escala europeia os três pilares do Desenvolvimento Sustentável.

 1997
Tratado de Amesterdão, onde se diz que a Comunidade Europeia tem por missão promover o Desenvolvimento Sustentável em todo o seu espaço.

 1997
Conferência de Kyoto, assinatura do protocolo de Kyoto, onde os países industrializados se comprometem a reduzir as suas emissões combinadas de gazes com efeito de estufa em pelo menos 5% em relação aos valores de 1990.

 2000
Cimeira de Lisboa, os 15 países da União Europeia desenvolvem uma estratégia para reforçar a coesão social.

 2001
Lançamento pela Comissão Europeia do Livro Verde para promover um quadro europeu para a Responsabilidade Social das empresas.

 2002
Cimeira de Joanesburgo, onde foi acordado o tratamento equilibrado e de uma forma integrada dos três pilares do Desenvolvimento Sustentável. Foi também definido um plano de acção de onde se destaca entre outros o combate à pobreza e a gestão dos recursos naturais.