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Acabar com a pobreza, tornar o mercado de trabalho igualitário, combater a discriminação das pessoas portadoras de deficiência e das minorias étnicas, lutar contra a exclusão financeira e o sobreendividamento, etc. Estas são algumas das prioridades europeias que orientam a Estratégia Nacional para a Protecção Social e a Inclusão Social 2008/2010. A meta é a erradicação da pobreza, através do envolvimento de todas as partes interessadas. Qual poderá ser o contributo das empresas?

O Contexto da Exclusão: os Números e os Objectivos Políticos
Em 2009, 18% dos portugueses estão em risco de pobreza (INE). Os grupos mais vulneráveis são os mais novos e os idosos, sendo que os últimos se encontram entre os mais pobres da UE. 300 mil crianças vivem em situação de pobreza; a saída escolar precoce é um flagelo que cria condições de precariedade para 36,3% dos jovens (14,8% na Europa dos 27). 630 mil pessoas são portadoras de deficiência, “condenadas” a ter uma taxa de desemprego duas vezes igual à taxa nacional, ainda que, segundo o parecer do Conselho Económico e Social, de Novembro de 2008, 80% teria condições para integrar o mercado de trabalho. Existe algum progresso no que respeita aos indicadores de risco de pobreza e à saída escolar precoce comparado com anos anteriores, mas os objectivos fixados pela União Europeia, nomeadamente a erradicação da pobreza, parecem ainda muito longe, sobretudo no contexto de crise.

Que interesse e legitimidade terão as empresas em envolver-se na política nacional de inclusão social?  

As empresas sempre tiveram um papel social activo quer na protecção dos seus colaboradores, quer através das suas acções de filantropia, por exemplo. O que está subentendido na problemática levantada é o seguinte: por um lado, face à dimensão dos problemas, as respostas tradicionais não funcionam; por outro, numa perspectiva de sustentabilidade, o contributo para a inclusão deve estar integrado na estratégia da empresa e trazer benefícios reais, quer numa óptica de gestão de riscos, quer numa óptica mais positiva, em que este contributo permite consolidar a gestão de vários activos.
Na óptica da gestão de riscos, a precariedade é um factor de abrandamento do consumo e de poupança. A exclusão, por seu lado, pode criar situações de conflitos e violência que prejudicam a Sociedade e as empresas. O envolvimento consistente das empresas permite, igualmente, antecipar a evolução das obrigações jurídicas relacionadas com a responsabilidade social das empresas e até evitar alguma nova regulamentação. Na óptica da eficiência empresarial, o compromisso com a inclusão pode ajudar a melhorar o clima interno, construído numa base de cultura solidária; consolida a imagem e reputação e optimiza a capacidade de inovar quer na relação da empresa com os seus stakeholders (ONG, empresas de inserção, entidades do serviço público, etc.), quer no desenvolvimento de novos serviços ou produtos, cuja função é de responder a uma carência social.
Enquanto contribuintes, as empresas participam activamente na inclusão social, pelo menos no financiamento de medidas políticas. Conjugar esta obrigação com um papel voluntário de actor envolvido legitimará a exigência de uma melhor governance e prestação de contas por parte das entidades do Estado e dos outros players.

Como actuar? Do Recrutamento à Criação de Novos Modelos de Negócio

Uma primeira abordagem é considerar a problemática da exclusão como um desafio de negócio tradicional e pensar nas pessoas como colaboradores, fornecedores/empresários ou clientes. Em função do seu contexto e dos seus objectivos, a empresa pode trabalhar diferentes dimensões, sendo que a dimensão interna permite conhecer melhor a realidade da exclusão. Trata-se então de recrutar, em função do grau de empregabilidade, privilegiando a aptidão e não tanto os diplomas. A prioridade pode ser, igualmente, aumentar a empregabilidade dos colaboradores mais vulneráveis (normalmente os colaboradores em situação de risco são os que menos formação recebem): o programa Novas Oportunidades, por exemplo, conta com a participação de 50 empresas nacionais, que, através de protocolos com o Ministério da Educação, proporcionam aos seus colaboradores a possibilidade de obter os diplomas do 9.ª ou 12.º anos de escolaridade. Outros dois temas ganham importância: a preocupação de médio/longo prazo relacionada com financiamento das reformas e a preocupação de muito curto prazo com os colaboradores sobreendividados, que precisam de aconselhamento para renegociar os seus planos de reembolso.
A cooperação com o terceiro sector e com empresas de inserção pode constituir também um eixo de actuação. Muitas iniciativas de inserção, lideradas por IPSS e ONG passam pela disponibilização de bens ou serviços, nomeadamente a empresas. Além desta relação cliente/fornecedor, a empresa pode, através da sua política de voluntariado, por exemplo, contribuir para a formação técnica e de gestão, definir percursos para um futuro recrutamento, participar no financiamento destas entidades, etc. O modelo tradicional de filantropia é substituído por um modelo híbrido, que agrega à abordagem social um objectivo empresarial e obriga cada parte a actuar a longo prazo, garantindo a sustentabilidade dos projectos.
Na perspectiva do cliente, a consideração de um público carenciado obriga a pensar em produtos low cost, indispensáveis e que não canibalizam os produtos tradicionais. É o caso do microseguro, microcrédito, mercearias sociais e, mais recentemente, da emergência de novos modelos para tornar o alojamento acessível a pessoas em situação de exclusão. Estas iniciativas dão às pessoas a oportunidade de sair do ciclo de pobreza e traduzem a evolução da filantropia empresarial, baseada no donativo, para uma estratégia de investimento social.

Artigo escrito pela SDC para a Newsletter Sustentabilidade n.º 20 do BCSD Portugal.



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