Em 2008, o Banco Mundial passou o nível de pobreza extrema de um dólar por dia para 1,25 dólares. Nesta base, as estimativas de referência (2005) mudaram e o panorama da pobreza aparece ainda mais grave: 1,4 bilhões de pessoas viviam em condições de extrema pobreza nos países em desenvolvimento no ano 2005, ou seja mais 400 milhões de pessoas do que nas estimativas anteriores. No entanto, houve progressos reais: a proporção de crianças com menos de 5 anos que sofrem de malnutrição passou de 33% (1990) para 26% (2006), mas estes 26% ainda representam mais de 140 milhões de crianças; as taxas de pobreza baixaram de 52% (1981) para 26% (2006), mas esta média esconde grandes heterogeneidades regionais e está relacionada com a evolução dos países do Este Asiático, enquanto a taxa de pobreza da África Subsariana, cerca de 50%, mantém-se constante. Possivelmente a situação vai piorar no contexto actual de crise alimentar: desde 2002, um dos factores que mais contribuiu para o crescimento de muitos dos países (exportadores) em desenvolvimento foi o aumento dos preços das matérias-primas. Paralelamente os países importadores tiveram maiores dificuldades. O aumento do custo dos produtos alimentares provocou as “revoltas da fome” em 2008, e mesmo com a recente diminuição dos preços, estima-se que mais 100 milhões de pessoas vão cair na pobreza absoluta. A recente inversão da tendência não parece ter ainda grandes efeitos e os países temem uma diminuição da ajuda internacional por causa de crise mundial.
Nos países em desenvolvimento, nem o facto de exercer uma actividade profissional, garante uma vida “decente”. Para milhões de pessoas hoje em dia, o trabalho não permite escapar à pobreza, porque os salários são demasiadamente baixos. Outra tendência é a rapidez da urbanização que modificou o cenário de pobreza: os habitantes das barracas – um bilhão de pessoas em todo o mundo - morrem mais novos, têm mais problemas de subnutrição e maior dificuldade em ter acesso à educação ou ao mercado do trabalho.
Neste quadro, o cumprimento dos Objectivos do Milénio - reduzir para metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população que vive com menos de um dólar/dia e que sofre de fome; atingir o pleno emprego e condições de trabalho decentes para todos – é um desafio gigantesco. Em 2008, o Banco Mundial alertou para a urgência de uma nova política alimentar mundial: comparticipação dos fundos soberanos para financiar a agricultura; mais apoio dos países industrializados para o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas; e progressos das negociações sobre o comércio mundial, que segundo o Banco Mundial, devem eliminar as subvenções agrícolas e acabar com o proteccionismo – uma posição altamente polémica. Do seu lado, os responsáveis pelos Objectivos do Milénio apelam igualmente para regras comerciais “menos desequilibradas” e para a multiplicação das parcerias com o sector económico.
Resposta do meio empresarial: o WBCSD considera que as actividades nos países em desenvolvimento são grandes fontes de oportunidades: para as populações, através de acesso a melhores infra-estruturas, empregos, formação, apoio à saúde, etc., e para o negócio uma vez que a maioria das multinacionais, hoje em dia, tem, no melhor dos casos, acesso a apenas um terço da população mundial e está a competir em mercados já completamente saturados. Nesta perspectiva, muitos dirigentes consideram que a sua presença nos países em desenvolvimento será crucial para a competitividade e o sucesso a longo prazo. A esta nova tendência empresarial, o WBCSD chamou “subsistência sustentável” (sustainable livelihoods) – uma estratégia que pretende criar lucro para a empresa ao mesmo tempo que ajuda as populações. A capacidade de inovar, criar produtos e serviços acessíveis e que respondem a necessidades básicas é um factor chave de sucesso e dinamiza a criatividade empresarial. A obrigação de rentabilidade, mesmo a longo prazo, permite sair da esfera da filantropia, que tem orçamentos limitados e entrar numa lógica de auto financiamento e crescimento. No entanto, para a participação das empresas ser mais eficiente, o sector privado espera dos governos a criação de novas condições para operar: revisão das legislações financeiras e fiscais, clareza das regras comerciais e dos direitos de propriedade, maior transparência.